De início a idéia parece contraditória, já que ambos os sistemas tem estrelas diferentes, no aquário de jumbos os peixes são o principal elemento, no plantado, as plantas e sua composição paisagística que são o foco. É possível essa união?

Depois de muito pesquisar e analisar diferentes montagens posso dizer que sim, é possível montar um aquário formando um todo onde ambos os elementos se unem e se completam, mas para isso ocorrer é preciso muito planejamento e usar critérios muito rigorosos na escolha de cada elemento desse aquário. Isso devido às necessidades de ambos os sistemas, por exemplo, quando falamos em plantados, já imaginamos aquele aquário que parece uma paisagem, repleto de plantas de diversas espécies... Mas.... Esse tipo de aquário precisa de manutenção constante, injeção de gás carbônico, substrato fértil e iluminação forte SEM TAMPA DE VIDRO. Já os jumbos normalmente não se dão bem com CO2, costumam bagunçar o substrato, precisam de pesadas tampas de vidro e iluminação moderada. Vejam que nem mencionei as espécies que se alimentam também de plantas.

Aqui no Brasil, praticamente todos os aquários que vejo não são plantados com jumbos, são aquários de jumbos com plantas apenas. A razão de você ver lá fora aquários lindos mesclando ambos e aqui apenas duas ou três espécies de plantas nos aquários de jumbo é, a meu ver, uma questão cultural que se resume em uma palavra: DISCIPLINA. Nos países onde vemos essas montagens darem certo os aquaristas tem a disciplina necessária para montar o aquário da forma correta e no tempo certo, coisa que não costuma acontecer no Brasil. Então, como seria essa união perfeita?

1Vamos começar pelo aquário

Aruanã Asiático (Scleropages formosus) em aquário plantadoPara evitar a necessidade de uma iluminação muito potente, o ideal é que o aquário tenha no máximo 50 cm de altura. Largura e comprimento não tem grande influência nesse caso. Um detalhe importante para começar uma montagem dessas, para que o sistema dê realmente certo, é preciso iniciar apenas com as plantas. Isso porque elas precisam de um tempo até que suas raízes se desenvolvam, isso vale tanto para as espécies que são plantas no solo, como as que se aderem à troncos ou rochas, como Anúbias e Microsorum. Esse período pode coincidir com a ciclagem do aquário, mas provavelmente se estenda por mais tempo que a maturação do filtro e é necessário que permaneça sem peixes, pois a simples movimentação deles pelo aquário pode dificultar ou impedir o bom enraizamento das plantas.

Apenas para lembrar, esse tipo de aquário não pode ter tampa de vidro entre a água e as lâmpadas pois o vidro impediria que as plantas recebessem todos os raios que necessitam da luz, porém muitos dos peixes que iremos colocar costumam saltar, para evitar fatalidades, podemos usar tampas de madeira fechando totalmente o aquário, com coolers e entradas para ventilação ou então montar uma armação e recobrir a parte superior com uma tela não muito fina, permitindo a passagem da luz, sem que os peixes passem por ela.

2o Escolher criteriosamente a fauna e flora

Aruanã Asiático (Scleropages formosus) em aquário plantadoFlora: O ideal é que sejam usadas espécies de plantas de baixa exigência e manutenção. O uso de substrato fértil é possível desde que eles possam ter contato com a coluna d'água sem liberação exagerada de nutrientes, os substratos que necessitam de camada isolante por cima não são muito indicados. A lluminação deve ser moderada e um fator muito importante, é que as espécies escolhidas consigam se desenvolver sem a necessidade de injeção de CO². Sugestões de plantas:

Preenchimento do fundo:

Sagittaria subulata ou Helanthium (Echinodorus) tenellum - Duas boas opções para quem gosta de um carpete forrando o fundo. Não estão entre as menores espécies, mas como aquários de jumbos costumam ter granes volumes, seu tamanho se torna agradável e sua resistência à choques e esbarrões dos peixes é bem maior que as espécies menores, mais utilizadas em aquários plantados de peixes pequenos.

Revestimento de troncos e rochas:

Musgos em geral, principalmente os dos gêneros Taxiphyllum (o mais popular é o Musgo de Java - Taxiphyllum barbieri), Vesicularia e Fissidens. Anubias barteri (todas as sub-espécies), todas as sub-espécies de Microsorum pteropus.

Plantas de médio e grande porte para o plantio no solo:

Uma grande parte das espécies do gênero Echinodorus, como Echinodorus bleheri, Echinodorus parviflorus, Echinodorus portoalegrensis, Echinodorus uruguayensis, algumas espécies do gênero Cryptocoryne.

 

Fauna: Aqui é onde existe a maior dificuldade, a escolha criteriosa da fauna é o que irá determinar o sucesso ou fracasso do sistema. Logo de cara já dá para dizer o óbvio, devem ser excluídas da montagem todas as espécies herbívoras e onívoras como Panaques, Gouramis Gigantes, Tambaquis, Pacus (TODAS as suas espécies e híbridos), Brycons (Piraputangas e Matrinchãs), Uarus, Piramboias etc. Além desses, devemos também excluir os escavadores, nessa categoria se enquadram vários ciclídeos, Mussuns e Arraias.

Eu poderia citar aqui várias espécies que se dão bem neste sistema, mas como são muito raras aqui no Brasil, vou me ater aos animais que conseguimos aqui. Espécies que podem sem usadas: Ctenopoma acutirostre (Gourami Leopardo). Logo de cara vocês podem pensar "ué, mas ele não falou que Gourami não dá?" Esse é uma exceção, essa espécie atinge 20 cm e é um predador de grande beleza, fica ótimo em plantados. Polypterus senegalus (se adapta tão bem que chega a se reproduzir nesse tipo de aquário). Monocirrhus polyacanthus (Peixe Folha), espécie de pequeno porte que chega a pouco mais de 10 cm, mas coloquei aqui na lista por ser um peixe fascinante, um ótimo predador, consegue engolir presas enormes comparadas a seu tamanho, porém tem o inconveniente de só se alimentar de presas vivas.

Lepisosteus, Datnioides, Facas, Aruanãs também são opções de fauna, porém vale lembrar que, devido à pouca profundidade do aquário, existe o risco de uma Aruanã já grande dominar toda a coluna d’água, tornando difícil a colocação de mais espécies. Poraquês e seus primos. Praticamente todos os Ituís podem ser mantidos, Tuviras ficam muito bem nesse sistema.

Aquário Plantado com Piranhas Vermelhas (Pygocentrus nattereri)Alguns poucos ciclídeos chamados de Jumbos podem ser mantidos, é o caso do Acaronia nassa, um dos poucos ciclídeos que podem ser mantidos em plantados, um peixe muito interessante, mas pouco conhecido no Brasil, atinge pouco mais de 20 cm. Caquetaia spectabilis, outro ciclídeo que fica muito bem nesse sistema, peixe de enorme beleza, menosprezado em nosso país, mais um caso de peixe brasileiro que não é valorizado, possui boca protrátil, se assemelhando muito aos Datnioides apesar de não ter nenhum parentesco com eles. São carnívoros de emboscada assim como o Acaronia, infelizmente são também bastante agressivos.

O Tucunaré é único dos nossos grandes ciclídeos que pode ser mantido em plantados, ainda assim apenas em sistemas grandes e desde que já adaptados a comer alimento morto, senão, podem revirar o substrato durante as caçadas. Jacundás às vezes dão certo, mas sempre é um risco caso formem casal.

Caracídeos, são os reis dos plantados, pelo menos na minha opinião, acho fantásticas as montagens onde existem cardumes de Neons e outros pequenos caracídeos coloridos, mas também existem as espécies maiores e predadoras que ficam muito bem neste sistema, entre elas, Saicangas, Charax, Cachorras, Bicudas, Hujetas e Piranhas (uma das montagens mais utilizadas lá fora, chegando a se reproduzir com grande frequência). Traíras, Dourados e Bagres (as espécies mais tranquilas como o Jurupesem e os de menor porte). Evite Pintados e outros grandes Bagres podem revirar o substrato com seus movimentos no aquário.

A formulação do conjunto fauna x flora vai dar a harmonia ao aquário e é de gosto pessoal de seu proprietário. A parte de decoração e paisagismo não irei opinar, pois isso é a parte onde entra a criatividade e sensibilidade do aquarista, mas sobre a fauna posso sugerir algumas combinações.

 

Sugestões de Fauna:

Fauna de pequeno porte: Gourami leopardo, Peixe folha, Hujeta, Senegalus, Charax, Acaronia e Traíra vermelha.

Fauna de médio porte: Caquetaia, Acaronia, Datnioides, Polypterus e Traíra

Fauna de caracídeos: Bicuda, Cachorra de rabo vermelho (H. tatauaia), Saicangas (várias espécies podem ser misturadas) e Traíra vermelha.

Fauna de grande porte 1: Dourado, Jurupensen, Polypterus Ornatos, Polypterus endlicheri e Traíra.

Fauna de grande porte 2: Aruanã, Tucunarés, Polypterus, Datnioides e Cachorra.

 

Enfim, essas são apenas ideias, relembro que esse é um sistema complexo, exige muito planejamento e disciplina na sua execução, a presença de plantas contribui muito para a redução dos dejetos dos peixes e melhor qualidade da água, e esses por sua vez ajudam fertilizando as plantas, mas não podemos jamais descuidar dos parâmetros, que devem ser sempre conferidos e corrigidos de acordo com as necessidades. A filtragem também tem que ser bem dimensionada, como se fosse um aquário de jumbos normal. Se todos os passos forem seguidos, você terá em sua casa um aquário de rara beleza e que com certeza irá cativar o olhar de quem quer que olhe para ele.

Texto original: Renato Moterani (Grupo Peixe Grande)

Aquários e Fotogafias: Oliver Knott (Aqua Design Consulting Company)

Adaptação: Marne Campos (AqOL)

Sobre o autor:
Renato Moterani
Autor: Renato Moterani
Renato Moterani, natural de São Paulo-SP, é aquarista desde 1986, na época foi a uma avicultura (o termo Pet Shop ainda não era popular) e comprou um peixe chamado OSCAR, colocando-o junto dos Neons e Espadas de seu irmão mais velho. Duas semanas depois ganhou esse aquário do irmão, após todos os demais peixes serem devorados. É técnico contábil e servidor público estadual, trabalhando atualmente no Instituto Butantan, com produção e pesquisas sobre venenos de serpentes. Sua maior paixão sempre foram os peixes grandes, e graças a muita dedicação e estudo se tornou referência nacional sobre o tema. Em 2014 criou o grupo Peixe Grande Aquarismo. Atualmente possui quatro aquários montados, que vão de 100 a 2.200 litros.

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