Rochas vivas são, de acordo com a web e a grosso modo, o conjunto de material orgânico fóssil (geralmente esqueletos de corais) que servem de abrigo para milhares de microrganismos capazes de realizar a filtragem biológica em aquários marinhos. Seu uso não é limitado apenas a água salgada, também é muito usado em aquários de ciclídeos africanos, pois além de decorar, ajuda a manter o pH sempre muito alto.

Em aquários marinhos seu uso é praticamente imprescindível, ajudando a manter a qualidade da água desses sistemas delicados. São extremamente porosas, garantindo que a água passe por seus micro-poros, oxigenando-os, permitindo assim a colonização e ótima fixação de diferentes cepas de bactérias. Essas colônias incluem bactérias nitrificantes (como Nitrosomonas, Nitrosospira, Nitrosococcus, Nitrosolobus, Nitrobacter, Nitrosospira, Nitrocystis ou Nitrococcus por exemplo) e desnitrificantes (como Micrococcus, Pseudomonas, Denitrobacillas e/ou Bacillus, por exemplo), garantindo a transformação da amônia do tanque em nitrito, desse nitrito em nitrato e posteriormente esse nitrato em gás nitrogênio, que é eliminado da água através de movimentação. Por isso em aquários marinhos não se costuma usar mídias biológicas como anéis de cerâmica por exemplo, pois esse trabalho é feito pelas rochas vivas. São vivas pois simplesmente são "cobertas" de vida microscópica.

Como são constituídas de materiais calcários, tendem a elevar o pH da água e sua dureza, outra condição importante para a manutenção tanto de peixes marinhos como de ciclídeos africanos. Quando maturadas, essas rochas também abrigam fauna macroscópica, que procuram tanto por alimento como por abrigo.

O lado triste e preocupante em relação às rochas vivas é que, ainda hoje, são coletadas ilegalmente da natureza. Ilegalmente pois é crime, recifes inteiros estão sendo devastados e, dentre diversos fatores, a coleta é um deles, segundo o IBAMA:

 

A coleta de algas calcárias ou de partes de rochas com incrustações de organismos vivos, sem licença, permissão ou autorização do IBAMA é considerado crime pela Lei N° 9.605.
Pena: detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas cumulativamente
Multa: de R$ 5.000,00 a R$ 1.000.000,00. (Art. 18, Inciso II do Decreto N° 3.179/99)



Triste porque, mesmo decretado em lei, muitos são os indivíduos que continuam coletando corais dos nossos recifes. Mesmo que cada pessoa colete pouco, várias pessoas o fazem, transformando algo que parece insignificante um ato desastroso, tendo em vista a importância desse material para a estabilidade de diversos ecossistemas marinhos. Nós, como aquaristas conscientes que somos, devemos repudiar e evitar ao máximo essa prática, seja não fazendo isso ou seja orientando entusiastas amadores do hobby. Devemos porque todo aquarista consciente é, inevitavelmente, um ecologista nato.

Então, se rochas vivas são essenciais para aquários marinhos e é proibido coletá-las na natureza, é possível manter aquários de água salgada sem burlar a lei? É sim, com o uso de Rochas Vivas Artificiais.

Rochas vivas artificiais (ou RVA) são, como o próprio nome diz, feitas artificialmente, possuindo as mesmas características e a mesma função das rochas vivas naturais e preservando o meio ambiente. Apesar de registros mostrarem que começaram a ser produzidas em meados dos anos 60, só agora é que seu uso está aos poucos (felizmente) se disseminando entre os aquaristas do mundo todo. Talvez isso esteja relacionado a informação, que hoje em dia chega aos mais inacessíveis lugares.

Além do fato positivo para o meio ambiente, o resultado final costuma ser bem fiel, tanto na sua funcionalidade como na sua aparência. Os materiais são variados e em geral bem acessíveis, tanto quanto os métodos e todo o processo em si. Fora o fato de que é divertido e muito gratificante ver o resultado de nosso trabalho em pleno funcionamento, dentro do aquário. É um FVM (Faça Você Mesmo) simples.

Esse trabalho visa mostrar o esteio da construção de rochas vivas artificiais, mostrando o básico e um pouco mais a quem estiver interessado. Como existem muitas maneiras diferentes, materiais alternativos e até mesmo técnicas, cabe ao aquarista decidir qual é a melhor para si e, inclusive, modificar de acordo com o seu gosto pessoal. Eu usei o mais básico, mas nada impede que o processo seja feito de forma mais aprimorada.

Primeiramente a lista de materiais necessários, que é composta basicamente de algum substrato e alguma massa como cimento. Vamos aos que eu usei, não sem antes esclarecer que se for construir rochas para aquários de cilídeos africanos não darei a quantidade pois o aquarista é que deve prever a consistência, que pode variar muito, então a mistura deve ser feita "a olho". Agora se a intensão for obter rochas vivas "autênticas", com uma grande porosidade necessária, uma proporção deve ser seguida. Vamos lá:


- Cascalho;
- Dolomita;
- Cimento branco sem fungicida e
- Sal grosso não iodado.

Cimento, sal grosso, cascalho e dolomita.

Apesar de usar dolomita e sal grosso, apenas o cascalho e o cimento branco já são suficientes.

 

 

No começo é que decidimos exatamente o tipo de rochas vivas que vamos construir:

- Se usarmos apenas o básico, praticamente não haverá porosidade e a área disponível para fixação das bactérias vai se resumir unicamente à superfície das peças. Isso não necessariamente representa algo ruim, pois elas podem ser usadas em aquários de ciclídeos africanos (ou de água salobra), pois mesmo com pouca porosidade, são muito bonitas e semelhantes as rochas verdadeiras. Como no aquário de água doce a biota se concentra mais no substrato e substancialmente nas mídias biológicas, as rochas acabam por representar importância secundária;

- Se a intensão é criar rochas com alto potencial biológico se faz necessário usarmos materiais ou técnicas que promovam porosidade ao produto final, como sal grosso, anéis de cerâmica esmigalhados, velas de filtros também esmigalhadas, fios de náilon, areia comum, cascalhos de diferentes granulometrias, pedaços de plástico mole ou até mesmo sacolas, papel celofane, papel comum etc. Apenas atente que o sal apesar das qualidades atrasa um pouco a secagem do cimento.

Mais importante do que usar sal grosso ou não, é a proporção dos materiais, que deve ser bem observada e é determinante do resultado final. Como dito anteriormente, se for para ciclídeos africanos, qualquer proporção será interessante, já que a peça será decorativa, agora quando queremos algo funcional (além de decorativo, claro), devemos prestar bastante atenção. A proporção nesse caso deve ser sempre próxima a seguinte:

6 PARTES DE SUBSTRATO: 1 PARTE DE CIMENTO: 0,5 PARTES DE ÁGUA


Mesmo sendo bem desproporcional é justamente essa diferença que garante uma porosidade absurdamente superior ao método sem controle algum dos materiais. Isso se justifica devido principalmente à relação do cimento com a água. Se usar muito cimento e água, maior do que o passado, acaba impedindo à mistura criar alguma porosidade, a peça se torna maciça, um bloco como uma pedra seria. Interessante para decoração, não para abrigar microrganismos. A mistura de cimento e água se superior de certa foram "sela" a rocha, impede que a água penetre através da corrente.

Como se usa pouquíssima água, essa mistura fica bem sólida ao toque, é normal e até mesmo um tanto cansativa de misturar. Por ser muito seca, cuidado com os materiais que usou, pois se possuírem grãos pontiagudos, pode acabar com alguns arranhões e até pequenos cortes. Isso pode acontecer muito se usar cacos de telha ou conchas moídas.

Bem, dando continuidade, lavamos bem o cascalho de forma que saia toda a sujeira que turve de marrom a água. Se usar dolomita ou outro material, deve ser igualmente limpo.


Substrato limpo e molhado mais cimento branco sem fungicida.

O básico, substrato limpo e molhado mais o cimento branco sem fungicida.

 

 

 

A granulometria do substrato é de vital importância para a aparência da rocha no final. Podem ser usados substratos grossos, médios, finos, no tamanho sugar size e até mesmo a mistura de duas ou mais diferentes granulometrias. Particularmente eu considero que a mistura de grãos de diferentes tamanhos ou o uso apenas dos menores causa um efeito muito bonito e bem natural.

Grãos de dolomita.

Repare como existem diferente tamanhos de grãos de dolomita, ajudam a dar um efeito natural e ajudam no potencial de alcalinizar da rocha.

 

 

 

Há quem recomende o uso de halimeda, aragonita, pó de ostra (ótima alternativa por ser barata, alcalinizante e facilmente encontrada em agropecuárias - há quem diga que pode liberar silicatos e fosfatos na água -gerando problema com algas, mas nada muito conclusivo, talvez podendo usá-la em pequena quantidade), conchas moídas (também conhecida como "farelo de conchas"), areia de praia, basalto ou areia comum de rio como substrato. Todos esse materiais são viáveis, mas interferem no resultado final de forma significativa. Devemos também considerar alguns aspectos lógicos que não podem ser esquecidos. O primeiro deles é que devemos evitar o uso de halimeda e de conchas moídas, pois se uma das vantagens das RVA é que não prejudicam o meio ambiente, usar esses materiais é no mínimo contraditório, já que causam impacto na natureza e mesmo que em menor escala, ainda é desnecessário. O segundo é que ao usar materiais "neutros" como basalto e areia de construção (de rio), o potencial alcalinizador é diminuído, mas nada muito significativo, pois no aquário existe o substrato que ficará encarregado de manter os devidos valores elevados, junto a diversos sais condicionadores disponíveis no mercado. O terceiro é a cor que cada substrato proporcionará, que só influencia no começo, pois conforme o aquário for maturando, as rochas vão sendo cobertas de algas, ao ponto de impedir que vejamos a aparência natural da peça.

Seguindo, usamos agora algum recipiente largo o suficiente para que seja possível trabalhar com os braços confortavelmente. Nele colocamos o cimento branco sem fungicida e aos poucos a água, misturando bem até obter uma consistência cremosa e levemente fluida. A quem coloque diretamente o substrato, é uma opção, mas na minha opinião não permite um total controle das quantidades.

Misturando o cimento e a água.

Misturamos o cimento e a água.

 

 

 

Existem relatos de quem use cimento comum na mistura, com resultados igualmente satisfatórios, apenas mudando o tempo de curtição, aumentando consideravelmente (pois o cimento cinza alcaliniza muito mais do que o branco). A água pode ser da torneira, com cloro mesmo, pois até que a peça seja utilizada no aquário, ele já evaporou.

Feito isso, colocamos parte do substrato, que no meu caso inicialmente foi cascalho comum de tamanho pequeno/médio. Colocamos apenas um pouco e vamos misturando, se ficar muito mole, coloque mais cascalho, até que fique com uma textura difícil de ser remexida.

Colocando o substrato.

Colocamos aos poucos o substrato de nossa escolha.

 

 

 

Pode usar tanto mais cimento como também mais do substrato, tudo depende do seu gosto. Nesse ponto, provavelmente já estará com os braços um pouco cansados, pois o material deve ser muito bem misturado, gerando uma massa uniforme.

Massa pronta, bem misturada.

Massa pronta, bem misturada.

 

 

Nesse ponto também podemos inserir corantes alimentícios nas cores de sua preferência, para dar mais naturalidade a RVA. Geralmente usamos diferentes combinações de vermelho, azul e amarelo, as cores primárias. É importante que sejam alimentícios, pois são inofensivos ao sistema aquático.

Uma listinha de possibilidades de combinações primárias:
Amarelo + vermelho = laranja; amarelo + azul = verde; vermelho + azul = roxo.

Variando nas quantidades de cada um, conseguimos diferentes tonalidades, que tendem a ser mais interessantes e naturais do que o básico puro. A mistura das cores secundárias também gera bonitas cores. No geral, cores como marro claro e escuro, amarelo-queimado, escarlate mais escuro, rosa forte e envelhecido, cinzas, verdes musgos e todos os tons envelhecidos produzem efeitos bem naturais.

Lembrando que o processo de tingir é desnecessário pois com o tempo as algas vão encobrir as rochas.

Agora vem a parte mais divertida de todo o processo, que é moldar as rochas de acordo com seu gosto. Solte sua criatividade! Podemos fazer túneis, tocas, cavernas, elevações, rochas com mais de um túnel/tocas, com tocas e túneis, formatos irregulares, enfim, solte a sua criatividade!!!

Pensando nos aquários de ciclídeos africanos, primeiramente farei rochas com túneis e cavernas. Uma das opções viáveis é pegar jornais velhos ou outros papéis (reciclagem marca presença nesse tutorial), amassá-los formando bolinhas redondas e ovais, ou mesmo compridas, quando se pretende fazer túneis que atravessem a peça inteira (podemos usar canos velhos ou mesmo aqueles balões compridos de festas infantis). Após, os enrolamos com papel filme plástico, sacolinhas de supermercado ou outros materiais que impermeabilizem a bolinha e que sejam atóxicos. Firmamos com fita adesiva.

Moldes que darão às rochas túneis e abrigos.

Moldes que darão às rochas túneis e abrigos.

 

Não importa se os moldes ficarem irregulares, isso até é desejado, pois dá naturalidade ao resultado final. Na natureza nada é certinho, podemos verificar. Pegamos então algum material bem firme que sirva de base para as peças, pode ser uma mesa, uma tábua ou mesmo uma lajota de tamanho suficiente. De preferência escolha aqueles que possam ser levados de um lugar a outro. Limpe bem e o encape (no meu caso encapei com sacolas também). Agora vemos porque a mistura deve ficar firme, se ficar muito líquida (basta acrescentar um pouco de cimento a mais e ela fica mais dura) ela tende a escorrer e ficar plana.

Bioballs podem ser usadas inteiras para dar volume e deixar espaço para água circular devido a porosidade. Exatamente como anéis de cerâmica inteiros e esmigalhados. Até rolos de cabelos (os conhecidos bobs) podem servir de molde interno permanente (eles não aparecem na estrutura final mas deixam um grande espaço interno para a reprodução das bactérias, principalmente as desnitrificantes.

Para túneis, colocamos o molde mais comprido e uma porção da massa por cima, encobrindo-o mas deixando suas pontas livres.

Futuro túnel ainda fresco.

Futuro túnel ainda fresco.

 

Como dito antes, use sua criatividade e faça peças bem diferentes. Coloque mais massa de um lado, faça elevações no outro, etc. Uma dica para ficar natural é usar uma colher e não "amassar", pois ao usarmos as mãos, alisamos a peça e ela fica artificial demais. com a colher, peque porções da mistura e deixe cair sobre o molde (é quse como se estivéssemos fritando bolinhos-de-chuva... Isso promove inúmeras "projeções" mais verticais, como se fosse um verdadeiro coral crescendo.

Rocha feita com cascalho de dolomita.

Rocha feita com cascalho de rio comum.

 

Diferença física de acordo com o substrato usado: na primeira imagem feito com cascalho de dolomita e à segunda com cascalho de rio comum.

 

Do modo mais tradicional, a base, na parte de baixo, devido ao suporte, fica muito lisa. Por ficar assim, ela deve ser levemente enterrada no substrato do aquário. Ao empilhar, fica muito artificial e até mesmo feio. Para dar embaixo uma aparência bem interessante e "verdadeira", podemos colocar uma camada de sal grosso na base antes de usar a massa. Fiz uma camada uniforme como exemplo, mas você pode fazer mais alto na esquerda, na direita o no meio. Assim, quando usarmos água para "curtir" as peças, o sal se dissolve e ficam as protuberâncias, em um efeito lindo.

Camada de sal.

Camada de sal para dar naturalidade e parte de baixo da peça, permitindo que seja empilhada e apareça sem parecer artificial.

 

Para aquários de grande porte podemos fazer RVA de até 3 "andares", com túneis, tocas e elevações naturais. Basta seguir o primeiro exemplo, após colocar mais moldes e mais massa por cima. Dá para fazer muitas coisas legais. Aproveite e faça túneis de diferentes tamanhos, para diferentes espécies de peixes ou mesmo pequenos para filhotes e maiores para adultos.

Preparação de túneis para a rocha.

 

Existe também uma técnica que consiste em colocar o sal grosso não iodado diretamente na mistura ainda fresca. Deve ser colocado quando já tiver misturado bem o cimento e o cascalho, pois se colocar antes disso, o sal se dissolve na água e estraga a mistura. Colocado o sal, misture apenas brevemente.

Sal colocado após a massa estar bem misturada.

Repare que o sal só foi colocado depois que a massa estava bem misturada.

 

A explicação é que, se feito com descrito, o sal se mantém sólido dentro da peça. Quando ela for curtida na água, o sal aos poucos se dissolve, deixando inúmeros buracos e aumentando a porosidade, e é nesses pequenos espaços criados que as bactérias se instalarão. Há quem diga que é desnecessário, mas ainda assim é uma opção interessante. Depois que o sal sai da RVA, ela fica consideravelmente mais leve, mesmo que apresente o mesmo tamanho.

Existe uma técnica muito eficiente para dar uma aparência incrível de coral verdadeiro. Para isso, pegamos um recipiente do tamanho que desejarmos e colocamos sal grosso, uma pequena camada de 1 cm aproximadamente.

Sal sendo moldado para dar uma aparência de coral.

No meu caso usei um pote de sorvete, mas qualquer recipiente maior ou menor pode ser usado.

 

Colocamos uma camada de massa, no formato e na altura desejada.

Camada de massa sobre o sal.

Camada de massa, com contorno irregular para dar naturalidade.

 

Em seguida colocamos nas bordas (a massa não deve encostar na borada do recipiente, do contrário ela fica lisa e feia) mais sal grosso, de modo que separe a massa das paredes internas do pote. Para criar fendas horizontais, basta colocar um punhadinho de sal sobre parte de cima da massa, mas sem cobri-la totalmente (se fizer isso terá duas peças e não uma inteira...).

Massa colocada nas bordas do sal.

Mais sal nas bordas para completar o espaço que sobrou.

 

E assim repetimos o processo até faltar pouco para chegar à borda do recipiente. Quando chegar a esse ponto, podemos cobrir a peça com sal grosso, e pressionarmos um pouco, firmemente mas sem muita força, para fazer o sal penetrar um pouco mais na massa. É como se fizéssemos uma escultura em 3D...

De qualquer modo que criar a rocha, depois de terminado ela deve "descansar" por 48 horas, um período bem seguro que evita manuseá-la enquanto ainda está úmida e quebradiça (se mexer nela antes pode quebrá-la, jogando todo o trabalho no lixo). Não há necessidade de a expor à luz solar, pode ser na sombra mesmo (se os dias estiverem chuvosos ou muito úmidos, espere pelo menos 72 horas), até porque o sol resseca a peça, o que devemos evitar. Durante um dia pelo menos, borrife de vez em quando água da torneira sobre as peças usando um borrifador comum, pois é importante mantê-las úmidas nos primeiros dias antes da "cura". Isso garante que fiquem bem firmes e evita o ressecamento e consequentes rachaduras.

Após esse tempo, você deve retirar os moldes caso os tenha usado. Esse processo deve ser feito com calma e com um tanto de cuidado: com uma tesoura ou uma faca, ambas bem afiadas, rasgue o plástico que encapa a bolinha de papel. Após, vá puxando o conteúdo da bolinha sem usar muita força (se forçar demais, pode quebrar, pois as RVAs são frágeis nos primeiros dias). Se usou aqueles balões compridos é bem mais fácil, bastando estourá-los.

Nas rochas feitas especialmente para aquários de água salgada, onde além da aparência interessante possuirão uma grande porosidade, com a mistura especialmente passada, a aparência é essa (nesse caso usei cascalho comum, mas fica muito mais bonitos com substratos brancos ou de tons bege):

Uma toca e uma rocha horizontal.

Uma toca e uma rocha horizontal feitos com o método da proporção passada anteriormente para uma ótima porosidade

(muito substrato, pouco cimento e menos ainda de água).

 

Como com esse método o substrato fica mais evidente, utilizar um com diferentes granulometrias misturados gera um efeito muito interessante.
Partes do substrato descobertos com a mistura.

Repare como muitas partes do substrato ficam descobertos com a mistura e que existem inúmeros "buracos" por onde a corrente de água pode passar. Se utilizar o outro método, esses "buracos ficariam totalmente preenchidos de cimento e água. A área em que as bactérias podem se fixar aumenta potencialmente.

 

Nas rochas feitas para decoração em aquários de ciclídeos africanos, a aparência final é essa:

Rocha simples.

Mesmo simples a primeira rocha fica bem interessante.

 

Rocha com marcas do plástico dos moldes.

Na rocha de 2 andares, é possível ver as marcas do plástico dos moldes.

 

Rocha com um túnel e duas tocas pequenas laterais.

Nesse caso eu fiz um túnel e duas tocas pequenas laterais.

 

Rocha com dois túneis grandes, um médio e um pequeno.

Peça com "3 andares". Dois túneis grandes, um médio e um pequeno, em formato curvo, bem no meio da rocha.

 

O procedimento é um pouco diferente com as peças que foram feitas dentro dos recipientes com sal. Viramos o pote com a mão apoiando, retirando a peça inteira e dando batidinhas suaves para tirar todo o sal. Veja como a peça já fica bonita mesmo com excesso de sal:

Peça do recipiente, ainda com sal incrustado.

Peça do recipiente, ainda com sal incrustado.

 

Rocha feita com cascalho de rio.

Rocha feita com dolomita.

Duas peças do recipiente, na primeira imagem feita com cascalho de rio e a segunda com dolomita.

 

Independentemente do uso do sal grosso, todas as peças devem passar por uma "curtição", que é um processo em que são submergidas em água limpa, por um tempo determinado. Isso é fundamental por diversos motivos:
- Durante esse tempo o sal das peças se dissolverá na água; 
- Elas perderão um pouco da capacidade de alcalinizar a água (é desejável pois ela a princípio o faz em excesso, podendo tornar o pH alto demais até para peixes marinhos);
- Pontas mais finas e arestas irão naturalmente cair (poderiam se soltar no aquário, turvando a água), deixando os contornos mais naturais, com aparência de desgaste natural;

Para que isso aconteça, é necessário que a água seja trocada regularmente. O ideal é que seja todos os dias, mas pelo menos dia-sim-dia-não. Trocar com frequência a água acelera o processo. Usar uma bomba de circulação forte não é necessário mas é uma imensa ajuda!

Bomba de circulação de água em pleno funcionamento.

Bomba de circulação de água em pleno funcionamento, agiliza a dissolução do sal grosso e desgasta naturalmente arestas mais frágeis.

 

Meça regularmente o pH da água antes de trocá-la, quando ele começar a cair, poderá ser usado no aquário. Isso leva um bom tempo, em torno de 2 à 4 meses, dependendo de como realizar o procedimento (com bomba e trocando a água todos os dias é mais rápido / com água parada e demorando para trocar o processo se estende). Existe a possibilidade de acidificar água com vinagre ou acidificantes comuns afim de acelerar, mas não vejo muita vantagem nisso, pleo contrário, pois maquia o resultado do teste de pH. Se utilizar cimento comum (cinza) o processo não pode ser menor do que um mês. Inicialmente o processo exige MUITAS trocas de água, em torno de 7 TPAs totais diárias na primeira semana, 4 TPAs na segunda semana (se fizer diárias o processo é acelerado). Pode demorar uns 3 meses até para baixar de 8.

Rocha apoiada em um fundo liso.

Rocha apoiada em sal grosso (ainda incrustado).

Para comparação: primeira imagem é com a rocha apoiada em um fundo liso e à segunda apoiada em sal grosso (ainda incrustado).

 

Base com sal antes do processo de curtição ou cura.

Base com sal depois do processo de curtição ou cura.

A mesma base com sal antes e depois do processo de curtição ou cura. É possível perceber como o sal grosso cria uma área muito maior para a colonização de bactérias!

 

Veja a diferença entre uma peça feita com dolomita (mais sólida e ideal para ciclídeos africanos) e uma com cascalho e sal grosso (mais porosa e ideal par aquários de água salgada.

Peças feitas com cascalho comum, sal grosso e dolomita.

RVAs: a peça à esquerda foi feita com cascalho comum e sal grosso e à direita com dolomita.

 

Como disse anteriormente essa técnica é versátil, é possível fazermos muitas coisas com ela: Usando pequenos medalhões dessa mistura, podemos fabricar bases para fixar diversas mudas de corais. Se usarmos uma quantidade maior de massa, podemos fazer bases maiores para organismos igualmente maiores. Podemos fazer nas peças comuns pequenas fendas usando tampinhas de garrafa PET, afim de fixar Anúbias ou Microsorum quando falamos em aquários de ciclídeos africanos. Fazendo depressões mais ingrimes, é possível colocar substrato para plantar alguma outra espécie do seu interesse. Fazendo bastões é possível fixar diversos musgos como também Microsorum, para mais tarde serem parcialmente enterradas no substrato, como colunas verticais.

Base para muda de coral ainda com sal incrustado.

Base para muda de coral já sem sal, pronta para o uso.

Bases para mudas de coral. Na primeira imagem ainda com sal incrustado e a segunda já sem sal, pronta para o uso (veja como sua aparência é bem natural).

 

Construir suas próprias rochas vivas artificiais é muito gratificante, pois é relaxante, divertido, econômico e ecologicamente correto. Pode ser ajustadas ao seu gosto e às suas necessidades. Moldadas conforme sua criatividade, cada peça será única. Fora o fato de que se forem feitas corretamente, possuem eficiência muito semelhante às naturais. Isso fica evidente depois de meses no aquário montado, não conseguimos diferencia-las das rochas verdadeiras, dado a sua grande capacidade de servir de suporte para inúmeras formas de vida, como as algas coralinas, por exemplo.

Mãos-à-Obra, faça suas próprias Rochas Vivas Artificiais!

 

Ficou com dúvidas? Então acesse: Rochas Vivas Artificiais: Como Fazer.

Sobre o autor:
Mateus Camboim
Autor: Mateus Camboim
Mateus Camboim de Oliveira, natural de Porto Alegre-RS, é estudante de ciências biológicas preparando-se para ser professor. Adora escrever sobre biologia, mas principalmente ler sobre o assunto. Começou no aquarismo em 1996, quando ganhou de seu pai um pequeno Plati Ouro, a partir de então, o fascínio por esses animais só aumentou, tendo montado diversos aquários desde então mas considerando que só se tornou um “aquarista de verdade” a partir de 2005, quando passou a montar um aquário seguindo tudo o que aprendeu. Sua área de maior interesse é a fauna do aquário, vendo o aquapaisagismo e a flora como parte integrante, porém não o principal.