O Acará Disco (Symphysodon aequifasciatus) ou simplesmente Disco sempre foi alvo do desejo da grande maioria dos aquaristas de água doce, não é à toa que ele é chamado de o Rei do Aquário de Água Doce e ao vê-lo bem adaptado ao aquário é normal que muitos não consigam imaginar esse peixe vivendo na natureza, parece que ele foi criado para aquários, dada sua elegância ao nadar frente ao vidro. Porém a verdade é bem diferente e manter Discos em aquários é uma tarefa muito prazerosa, mas bastante delicada também.

A idéia desse artigo é falar um pouco sobre a manutenção de Discos Selvagens (Symphysodon aequifasciatus) ou Discos Marrons em aquários de água doce, apesar dos Selvagens serem classsificados como Azuis, Verdes entre outras cores, a cor básica de todos sempre é o Marrom, então vou me refirir à eles dessa forma. Há também uma espécie de Disco Selvagem conhecida por Disco Selvagem Heckel (Symphysodon discus), essas duas espécies protagonizam uma eterna discussão sobre se seriam realmente duas espécies distintas ou somente variedades de uma mesma. De qualquer maneira vamos nos referir sempre ao primeiro, porém as mesmas informações servem para o segundo (S. discus), mesmo que em minha experiência com ambos, considere o Heckel um pouco mais exigente para ser mantido em aquários.


A Escolha dos Peixes

Tenha em mente que 95% dos Discos Marrons que encontrar em lojas são capturados e consequentemente selvagens, se o lojista disser que são criados, desconfie. A reprodução de Discos selvagens em aquários é bem mais difícil que a dos Discos criados pelo homem ao longos dos anos (que chamo de domésticos), ela não é impossível e nem raríssima, porém a procura por animais selvagens é bem menor e aliado à maior dificuldade de manutenção e reprodução, ainda acaba sendo mais barato capturá-los na natureza, infelizmente.

Discos Selvagens procurando ração no fundo do aquárioTendo em mente que são animais selvagens, pense que muitos nunca viram ração na frente, então peça sempre para ver os animais comendo e observe bem a ração que o lojista oferece, é normal alimentá-los com patês de carne de ave, ração misturada com alimentos vivos como bloodworms e artêmia etc, evite animais que só aceitam isso, peça para vê-los comendo ração industrializada. Eu nunca levo para casa peixes que percebo não terem atração por ração, pois alimentos vivos devem ser uma adicional à dieta dos animais mantidos em aquários e nunca a base da alimentação.

Caso o animal não coma a ração logo que ela for colocada na água, tenha calma, muitos Discos esperam ela afundar e ficam "ciscando" no fundo por vários minutos. O primeiro passo é ter interesse na ração, nem que fique pegando e cuspindo nos primeiros segundos, já é um sinal de interesse. É importante observar se alguns grãos o peixe realmente come. O ideal são peixes que logo que a ração é oferecida já se alimentam rapidamente sem dar tempo dela chegar ao fundo, porém nas lojas, devido ao estresse nem sempre isso acontece e você pode perder um ótimo peixe por excesso de cautela e falta de paciência em observá-los.

Outro critério de escolha dos peixes é a cor, como a maioria das rações industrializadas para Discos possuem corantes "naturais", os peixes que aceitam melhor a ração tendem a ter a sua coloração marrom, levemente avermelhada, enquanto os peixes que não aceitam ração ficam mais amarelados ou desbotados, além de magros, é claro. Esse "truque" para escolher os peixes só funciona quando há um grupo no mesmo aquário pois a diferença de coloração é sutil e só é perceptível pela comparação entre os indivíduos.

Por último deixei um critério que tenho obervado ser de grande significância, mas não devemos adotar como único nem principal, a idade. Peixes mais novos tendem a se adaptar melhor à vida em aquário que peixes adultos. Percebo que é bem mais difícil encontrar filhotes de Discos Selvagens em lojas, além de ser extremamente delicado o assunto sobre a sua captura, muitos são peixes que nunca se reproduziram na natureza, o que pode ser visto por alguns como um crime ambiental, porém vamos deixar isso para um artigo futuro. Entenda filhotes peixes com tamanho em torno de 8cm, já que é praticamente um fenômeno achar Discos Selvagens menores que isso, nem tente procurá-los do mesmo tamanho que os criados são vendidos, menos de 5cm, eu nunca vi em anos de aquarismo. Peixes com tamanho acima de 15cm devem ser ainda mais cuidadosamente observados na loja seguindo os critérios acima, é importantíssimo vê-los comendo ração vigorosamente, caso contrário não compre. Não acredite na conversa que eles estão bem alimentos e por isso não se interessaram pela ração naquele momento, volte mais tarde se for o caso. Um Disco já adulto e aceitando ração industrializada poder ser ainda mais interessante que um filhote, visto que você já sabe qual será a cor predominante do peixe, coisa que é praticamente impossível com filhotes. Não pense que o peixe já é velho e vai viver poucos meses no seu aquário por ser adulto, na maioria dos casos, 15 cm é um adulto "na flor da idade" com dois ou três anos e ainda terá muitos anos de vida no aquário se mantido adequadamente, lembre-se que eles podem chegar a 25cm e viver 10 anos tranquilamente.


Recepção do Animal


Você está tirando um peixe da natureza, mais um motivo para se dedicar ainda mais em mantê-lo vivo e saudável (entenda feliz, se preferir). Discos não são peixes baratos e são extremamente exigentes, você já teve um grande trabalho observando os animais na loja, selecionando os mais adaptados à vida em aquário, não vai por tudo a perder por simples "preguiça" de realizar a quarentena, certo? Quarentena não significa 40 dias de isolamento, muitas vezes já se pode soltar o peixe no aquário principal após uma semana, por isso eu gosto de ver mais como uma recuperação para o peixe do que uma quarentena propriamente dita. Nessa semana, o peixe fica em um aquário limpo, bem oxigenado, sem a hostilidade dos moradores mais antigos do aquário principal etc, fatores que favorecem a recuperação ao estresse da captura e transporte até a sua casa. Nesse período você pode estimular o peixe a aceitar a ração que você oferece aos outros no aquário principal, seja com vitaminas, seja com aumento do metabolismo manipulando a temperatura da água. Além de todas as vantagens, é muito mais fácil ver se o peixe possui alguma doença. Já adiquri 3 a 4 peixes de uma só vez e fui passando para o aquário principal aos poucos, primeiro os que melhor responderam à recuperação, e por último os que sentiram mais a mudança. Os peixes são como nós, possuem um organismo que apesar de semelhante entre os indivíduos da espécie, reagem de maneira diferente à fatores externos, daí alguns peixes precisarem de um maior tempo de recuperação que outros.


O Aquário

Se formos querer montar um ambiente semelhante ao que os peixes vivem, pense num aquário com pouca iluminação, água cor de chá, muitos galhos lembrando raízes de árvores e praticamente nenhuma planta, é assim o ambiente que eles vivem na natureza. Como conheço poucas pessoas que se interessariam por ter um aquário assim no meio da sala de estar, não vou entrar muito em detalhes desse tipo de montagem, no máximo indicar o artigo Aquários de Água Negra: uma montagem alternativa, do meu colega Mateus Camboim.

Discos Selvagens em Aquário com Plantas NaturaisVou falar aqui do desejo da maioria que é o de manter os Discos Selvagens em aquários com plantas naturais, iluminação atrativa à visão humana e água cristalina, não vamos chamar de plantado, onde os atores principais são as plantas, mas de aquário com plantas, mesmo porque, os jardineiros aquáticos que me desculpem, mas nem as plantas podem competir com o Rei do Aquário de Água Doce.

É possível sim mantê-lo em aquários assim e com saúde (fiquei à vontade para entender felizes). As regras básicas continuam valendo para aquários com plantas ou não. Discos são peixes de cardume, procure por videos deles em habitat natural e verá que estão sempre em grupos, seja descansando à sombra de algum galho, seja nadando entre as raízes. Não coloque um ou dois exemplares, seja por solidão, seja por pressão do dominante sobre o dominado, mantenha no mínimo cinco exemplares, que podem até ter tamanhos variados se for o caso. Discos não formarão grupos com Bandeiras, Festivos, Uarus ou Neons, eles não fazem isso na natureza e não farão no seu aquário, não se iluda imaginando que porque passaram alguns segundos acompanhando um grupo de Bandeiras, eles se sentem como parte integrante do cardume.

Se pensarmos que eles podem chegar a 25cm, chegando fácil aos 15 ou 20cm em pouco tempo e precisam ser mantidos em grupos de 5 indivíduos ou mais, imagine o tamanho do aquário mínimo indicado para eles. Isso mesmo, não faça a maldade com eles e com você de mantê-los em aquários de menos de 300 litros. Esse é o mínimo para você conseguir manter um grupo de 5 peixes adequadamente e sem aumentar as dificuldades de sua manutenção que já não são poucas. Lembre-se, você o tirou da natureza, é seu dever dar a melhor condição possível para o peixe, que quanto mais adequadamente mantido, menos preocupações dará à você.

A filtragem é importante, principalmente a biológica. A qualidade da água será um fator fundamental na manutenção do peixe. Se for um aquário com plantas, os cannisters são os mais indicados, posicione-os de maneira que mantenham uma movimentação contínua da água, incluindo a superfície mas sem fluxo intenso, uma dica é você conseguir perceber a movimentação da água porém se colocar a mão quase não sentí-la. Não gosto das fórmulas de tantos litros por hora pois cada aquário é um aquário e cada modelo de filtro é diferente. Aplique a dica acima e utilize a sensibilidade humana, fórmulas são utilizadas por máquinas, a capacidade do nosso cérebro vai muito além disso.

Disco Selvagem se refugiando na sombra das plantasIluminação, não precisa ter um sol sobre o aquário, mas é possível ter iluminação suficiente para manter aquele carpete de plantas que você tanto deseja. Lembre-se somente de criar zonas de sombra para os peixes, isso é possível tanto com plantas de folhas maiores como Echinodorus (Echinodorus ssp.), Ninféias  (Nymphaea ssp.) entre outras, como com troncos. Eu sempre gostei de compor os troncos de maneira que saíssem da água dando a impressão de serem parte de uma árvore parcialmene submersa, na parte emersa coloco plantas que ajudam a fazer sombra nos arredores do tronco. Muitos Discos passam boa parte do dia nessa região, aproveitando as "frestas" entre os troncos e a sombra que a vegetação emersa acima deles proporciona. Aproveitando que estamos falando sobre vegetação, prefira plantas de crescmento lento, nenhum peixe gosta que você fiquei colocando a mão dentro da água toda semana para podar as plantas, e os Discos também não se sentirão confortáveis. Plantas de crescimento lento como Microsorium, Cryptocorynes, Echinodorus, Cyperus entre outras são estimuladas pela injeção de CO2 (sim, você pode injetar CO2) sem exigir podas semanais.

A manutenção dos Discos Selvagens em aquários tem um fator importantíssimo tanto em aquários com plantas como em aquários sem plantas, e acredito que fez grande diferença nesses anos que mantive esse belíssimo peixe em aquários com plantas. As trocas de águas! Trocas de água são importantíssimas, esqueça aquela velha máxima que alguns peixes gostam de água velha, isso não deve ser interpretado ao pé da letra. Um grande avanço da minha parte na manutenção de Discos Selvagens em aquários plantados ocorreu após eu passar a realizar trocas de 50% da água semanalmente e acredito que se conseguisse manter esse procedimento duas vezes por semanas talvez obtivesse resultados ainda melhores. É perceptível a diferença que isso faz na saúde dos animais.

 

Sobre o autor:
Marne Campos
Autor: Marne Campos
Marne Campos, natural de Campinas-SP, é aquarista desde 1990 quando, aos 7 anos de idade, ganhou o seu primeiro aquário e se apaixonou completamente pelo aquarismo. Bacharel em Análise de Sistemas pela PUC-CAMPINAS e técnico em Eletro-Eletrônica pela UNICAMP, criou o projeto Aquarismo Online em 1999, além outras iniciativas ligadas ao aquarismo que vieram logo em seguida, entre elas a idealização do CBAP (Concurso Brasileiro de Aquapaisagismo) onde ocupou o cargo máximo por 12 anos. Dedica-se à aquários plantados desde 1998, tendo como principal área de interesse atualmente, a manutenção de ambientes aquáticos por longos períodos.