Podemos entender por estresse qualquer condição em que o peixe torna-se incapaz de manter um estado fisiológico e comportamental normal devido a um ou mais fatores estressantes. Um fator estressante ou estressor é todo agente que provoca reação de estresse.

Os agentes estressores são divididos em três categorias.

Físicos. Captura, manipulação, transporte, temperatura da água, densidade populacional, alimentação, intensidade de luz, etc.
Químicos. Amônia, nitrito, pH, presença de poluentes, concentração de oxigênio dissolvido na água, etc.
Biológicos. Patógenos (organismos capazes de gerar doenças).
Pode ser também considerado um agente estressor algo percebido pelo peixe, como a presença de predadores.

O estresse é um estado produzido pelo ambiente ou outros fatores que exige do peixe respostas de adaptação que ultrapassam a faixa normal de funcionamento de seu organismo. A Síndrome da Adaptação Geral (SAG) é um modelo que caracteriza as alterações fisiológicas e comportamentais frente a um agente estressor e divide-se em três fases.

Cascudo estressado e sem abrigoReação de Alarme. Ocorre imediatamente ao momento em que o peixe tem o primeiro contato com o agente estressor e tem uma resposta endócrina (liberação de substâncias como adrenalina e noradrenalina) muito rápida. 

Reação de Resistência. É uma fase de maior duração e marcada por alterações fisiológicas secundárias, como excessiva liberação de cortisona e cortisol. Estas substâncias causam imunodepressão, debilitando o peixe e comprometendo suas defesas imunitárias. As respostas fisiológicas nesta fase são uma tentativa de ajuste do peixe frente ao ambiente buscando um novo equilíbrio.

Reação de Exaustão. É basicamente marcada pela falha dos mecanismos de adaptação, em função da duração e/ou severidade dos agentes estressores. O peixe fica esgotado por sobrecarga fisiológica, excedendo seu limite físico e tornando-se propenso ao desenvolvimento de doenças oportunistas ou a morte.

Parece complicado, mas é realmente mais simples e comum do que se imagina. Um exemplo?

O aquarista vai à loja comprar ração. Só ração. No momento em que entra, o inevitável acontece: vai olhar as baterias e, em um expositor qualquer, vê os peixes que quer faz tempo e nunca encontra. Alguma dúvida sobre o que acontece?

Kinguio recém chegado ainda no saquinhoRedinha, saco plástico, os peixes chacoalhando lá dentro até ele voltar para casa (estressores físicos). Já na aclimatação (só para simplificar, vamos esquecer da quarentena e sua importância) o aquarista percebe que os peixes perderam a cor, estão agitados e com a respiração acelerada (resposta fisiológica a um fator estressante). No momento de soltá-los no aquário, na maior expectativa para vê-los nadando, eles simplesmente se escondem (resposta comportamental a um fator estressante). E lá fica nosso aquarista, parado na frente do aquário, na maior frustração.

Talvez este seja o exemplo mais comum de estresse que observamos. Os peixes passaram por uma situação de ameaça e deram respostas de adaptação, buscando um novo equilíbrio para sua sobrevivência (homeostase). Como estes estressores (captura, transporte, inserção em ambiente desconhecido) são de curta duração, é provável que em vinte e quatro horas os peixes estejam adaptados, com cor e respiração normais, explorando o aquário e se alimentando. Já a exposição crônica e prolongada a fatores estressantes acarreta alterações patológicas mais severas como redução da capacidade reprodutiva, diminuição na taxa de crescimento e resistência a doenças, podendo inclusive levar ao óbito.

Basicamente por desconhecimento, algumas pessoas que mantém aquário não atentam para a importância e o cuidado de não estressar seus peixes. Na verdade, sequer imaginam o quanto suas ações ou o próprio ambiente de casa podem contribuir para isto, levando à perdas indesejadas e prejudicando a criação. Abaixo segue uma pequena lista das situações mais comuns que levam os peixes ao estresse e que devem ser evitadas ou corrigidas.

- Manter o aquário em local muito agitado da casa, constantemente cheio de pessoas.


- Excesso de barulho próximo ao aquário: peixes não "escutam" como nós, mas são sensíveis a vibrações sonoras. Bater no vidro do aquário também não é boa ideia.


- Movimentos bruscos, que costumam assustar os peixes.


- Criador (ou crianças) perseguindo os peixes com a redinha ou outro objeto qualquer.


- Deterioração da qualidade da água.


- Modificações constantes na posição de pedras, troncos, ornamentos, plantas. Depois de colocados os peixes, seu espaço deve ser respeitado. 


- Alimentos de baixa qualidade ou sempre o mesmo alimento (única ração). Oferecer alimento demais ou de menos conforme a espécie e segundo os habitantes do aquário.


- Superlotação: muitos peixes para pouca água (inclusive peixe de grande porte em tanque pequeno).


- Fauna incompatível: manter espécies pacíficas com outras agressivas que perseguem, machucam, coagem ou matam.


- Manter um único exemplar de peixes que vivem em grupo, como Corydoras ssp. ou Paracheirodon ssp. (Neons), por exemplo.


- Grandes variações de temperatura (cinco graus Celcius ou mais durante o dia) ou temperatura fora do intervalo de conforto para a fauna (muito quente ou muito frio).


- Grande diferença nos parâmetros da água entre o aquário da loja e o de casa, ou parâmetros (em casa) impróprios para a espécie comprada: por exemplo, peixes de águas ácidas e moles colocados em água dura e alcalina.


- Iluminação muito potente, sem o oferecimento de áreas de sombra ou recursos que minimizem a claridade.


- Utilização de filtro, bomba submersa ou cortina de bolhas que provoquem muita correnteza ou turbulência, quando a fauna reconhecidamente prefere água calma. 


- Falta de plantas para oferecer abrigo e de tocas para peixes que gostam de se esconder, principalmente os de hábitos noturnos.


- Coluna d’água rasa demais para peixes que necessitam de certa profundidade (manter acarás bandeira em aquário com 30 cm de coluna d’água quando precisam de pelo menos 40 cm, sendo o melhor 50 cm a 60 cm).


- Forçar os peixes a "aparecer" no aquário, seja com a mão ou algum objeto, fazendo-os sair de tocas e esconderijos, expondo-os sem necessidade.


- Inserir os peixes em aquário sem ciclagem.


- Usar água com cloro e metais pesados.

O que todo aquarista quer é ter um belo tanque para poder aliviar o próprio estresse diário. Porém, ele precisa deixar a contemplação agradável e acostumar-se a atentar para o que ocorre em seu tanque. Evitando ou corrigindo os pontos citados, haverá com certeza uma grande queda de estresse no aquário. Peixes estressados perdem suas cores, mudam o padrão de natação, não se alimentam, vivem parados, assustados, escondidos, adoecem com facilidade e chegam a morrer. Como sempre é bom lembrar, peixe não é brinquedo. Cuide bem dos seus!

 

Escrito por: Katsuzo Koike e Solange Nalenvajko

Sobre o autor:
Equipe AqOL
Autor: Equipe AqOL
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