Planejamos um aquário. Escolhemos seu tamanho, equipamentos, hardscape "bonitinho", fauna a ser mantida e flora. Encaramos pacientemente (ou não) o período de ciclagem, inserimos os habitantes e, lá pelas tantas, surgem as algas e os problemas relacionados ao acúmulo de detritos. Pôxa, mas meu filtro é bem dimensionado, a circulação está boa e não há superpopulação, faço o quê? Ah, põe uma equipe de "peixes de limpeza" que já resolve. E é desta maneira e por este motivo que colocamos em nosso aquário animais que nunca estiveram previstos na montagem, inclusive muitas vezes oferecendo-lhes um ambiente nada adequado. 

"A turma da faxina" como é mais conhecida, são espécies que geralmente começam pela letra C: cascudos (incluso otos), corydoras, camarões, caramujos e comedores de algas, habitualmente escolhidos em função de seu regime alimentar, além da forma e locais em que se alimentam. Sobre eles colocamos a responsabilidade de manter o aquário limpo de algas, restos de ração e matéria vegetal morta. A ideia é esta, só que não é bem assim que a coisa funciona.

As informações à seguir são genéricas mas importantes para quem quer manter seu aquário equilibrado e livre de algas. É indicado pesquisar especificamente sobre a espécie que deseja manter para não ter surpresas desagradáveis depois. No mínimo evita-se o susto de descobrir que adquiriu um peixe que, quando adulto, pode ficar quase do mesmo comprimento de seu aquário.



Cascudos.

Cascudo do gênero Ancistrus, fama de ótimo algueiroDos pequenos Limpa Vidro (Otocinclus sp., cerca de 3 cm) aos Abacaxi (Pterygoplichthys pardalis, cerca de 35 cm), passando pelo lindíssimo Zebra (Hypancistrus zebra L046, cerca de 10 cm), todos são peixes que pertencem à ordem Siluriformes. Somente a família Loricariidae, por exemplo, possui seis subfamílias, mais de setenta gêneros e cerca de seiscentas e noventa espécies conhecidas. 

São conhecidos popularmente como cascudos ou acaris e têm como características principais corpo revestido por fileiras de placas ósseas, primeiro raio da nadadeira dorsal duro, boca inferior e lábios em forma de ventosa. Possuem respiração aérea acessória. Conforme a espécie podem ser basicamente herbívoros, basicamente carnívoros, onívoros, necessitando ou não consumir celulose (raspadores de madeira). Em sua maioria são animais pacíficos com algumas poucas espécies agressivas e territorialistas. 

Na média, o tamanho que varia entre 10 cm e 40 cm e distribuem-se pela América do Sul e Central. Vivem em ambiente lótico (águas correntes ricas em oxigênio) onde se alimentam de microrganismos existentes no limo, algas, pequenos vermes e crustáceos.

Aliás, cascudos estão sempre se alimentando. São bons ajudantes no combate a algumas algas, mas esta não deve ser a única opção alimentar. Comerão sobras de ração de outros peixes, embora não seja a nutrição mais adequada. Pesquise sobre a espécie que mantém, verifique sua necessidade alimentar, ofereça rações de qualidade, legumes, vegetais. Talvez o bichinho conclua que a comida que você proporciona seja melhor do que raspar algas e desista do emprego de faxineiro, mas pelo menos você terá um animal bonito e saudável em seu aquário.

 

Corydoras.

Coridoras preferem viver em gruposTambém da ordem Siluriformes, pertencem à família Callichthyidae sendo um de seus oito gêneros e possuindo mais de cento e sessenta espécies descritas. Conhecidos vulgarmente como limpa-fundo, são caracterizados pela presença de placas ósseas em ambos os lados do corpo, nadadeira dorsal e nadadeiras peitorais guarnecidas com espinhos e dois pares de barbilhões curtos no maxilar. Possuem respiração aérea acessória facultativa.

Encontrados em diferentes ambientes (rios, pequenos riachos, áreas pantanosas) são onívoros com tendências carnívoras e em seu ambiente natural alimentam-se de insetos, vermes, larvas, peixes mortos e eventualmente vegetais. Corydoras não comem algas.

O tamanho médio varia entre 2 cm a 10 cm. São bentônicos (vivem junto ao substrato), gregários (vivem em grupo), pacíficos, apreciam a vegetação marginal densa sob a qual se abrigam e são mais ativos durante o dia e crepúsculo. Distribuem-se pela América do Sul e Central.

No aquário, vale a recomendação anterior: pesquise sobre a espécie que deseja manter. Certifique-se que seu aquário tem condições de recebê-los e se não há potenciais predadores. Da mesma forma, atenção com alimentação: não permita que vivam apenas com as sobras dos demais habitantes. Ofereça ração própria para eles e inclua alimentos de origem animal. Cardápio diversificado é mais saudável. 


Caramujos e camarões.

O Physa sp. possui uma alta taxa reprodutivaOs caramujos de aquário são moluscos gastrópodes aquáticos que possuem carapaça ou concha. É muito comum que venham como clandestinos em plantas recém-adquiridas e colocadas nos aquários. Os mais comuns são os physas, lymnaeas, melanóides e planorbídeos.

São onívoros, alimentam-se de algas, restos de ração, detritos vegetais e animais mortos. Se não controlados, com alimentação abundante e ausência de predadores, podem se reproduzir demasiadamente e infestar o aquário, embora isso não seja maléfico para o ambiente ou peixes. Passam o dia sobre as folhas, no fundo, sobre os vidros, pedras e tudo o mais que tiver algas e restos de comida. Alguns são capazes de permanecer na superfície da água em busca de ração, na hora da refeição. Sua função de "faxineiro" deve ser respeitada e sua saúde indica a saúde da água no aquário.

Physas, lymnaeas e planorbídeos são pulmonados e com relação a reprodução são hermafroditas capazes de autofecundação ou fecundação cruzada. Os ovos são depositados em uma massa gelatinosa, dentro d’água, em superfícies como o vidro, tronco, rocha e folhas.

Melanóides possuem respiração branquial e reproduzem-se por partenogênese, gerando cópias de si mesmo sem necessidade de fecundação. São noctívagos, permanecendo enterrados no substrato durante o dia. Não põem ovos. Ampulárias e neritinas são dioicos (sexos separados), com fecundação interna, sendo que a ampulária deposita seus ovos fora d’água.

Além de belos, os camarões Neocaridinas ajudam na faxinaFinalmente, falemos dos pequenos camarões que habitam muitos aquários e de seus hábitos alimentares. Detritívoros, algívoros e catadores, alimentam-se de animais mortos, plantas em decomposição, algas, sobras de ração, biofilme. Como bom "faxineiro", busca tanto matéria vegetal que contribui para reforçar suas cores quanto proteínas que auxiliam seu crescimento e reprodução. Bom lembrar que, em longo prazo, apenas algas não são suficientes para sustenta-los de forma satisfatória. A maior parte deles é sensível a água de baixa qualidade e altos níveis de nitrato. Bastante vulneráveis após a ecdise, necessitam de locais seguros para abrigarem-se. 

O maior problema dos camarões em um aquário comunitário chama-se peixes. Por estar na base da cadeia alimentar e considerando seu pequeno tamanho (camarões recém-nascidos têm cerca de um milímetro), a predação é inevitável. Mesmo havendo vegetação densa, troncos e pedras que proporcionem abrigo, é comum que vivam escondidos, sob estresse, inclusive tanto o número de fêmeas ovadas quanto a quantidade de ovos diminui. Assim, seja por predação ou menor número de descendentes, se o aquário não oferecer uma boa ambientação, com fauna adequada, a tendência é que os camarões desapareçam do tanque.

 

Comedores de Algas.

Comedor de Algas Chinês "Gold", espécie pode atacar peixes maiores e lentosEsses peixes são outra ótima opção para quem quer se defender da explosão de algas no aquário e seu gosto por algas coloca tais Ciprinídeos no rol da “Turma da Faxina”. Mas é preciso fornecer as condições corretas no aquário para a sua boa atuação. Ao mesmo tempo, como já foi dito acima, é fundamental estudar as espécies que se pretende criar, ou as que o comércio de peixes oferece, para não ter surpresas desagradáveis. A solução de um problema pode gerar outros, para dor de cabeça de muitos criadores desavisados.

Antes de apresentar as prıncipais espécies de Comedores de Algas, vale dizer que esses peixes são bastante exigentes quanto à qualidade de água, não comem qualquer tipo de alga e detestam o acúmulo de matéria orgânica no aquário. No meio natural, vivem em águas de correnteza baixa ou média, sempre no meio de pedras, cascalho fino, troncos e pedras. Além de algas, adoram pequenos vermes, crustáceos, plantas, plâncton e até alevinos de outros peixes. Em cativeiro, se alimentados com ração em excesso não se interessarão pelas algas. 

Também não são a solução completa para a limpeza do aquário, muito pelo contrário, pois até ajudam a sujar a água como bons ciprinídeos que são. Ainda é preciso saber que não são adequados para aquários pequenos ou sem objetos, pedras e plantas que forneçam abrigos e esconderijos.

Crescem entre 14 cm a 28 cm, como é o caso do Comedor de Alga Chinês (Gyrinocheilus aymonieri), comumente vendido nas lojas de peixes ornamentais do Brasil (nas versões comum ou albina) a baixo preço. Apesar do nome nem mesmo são da China mas dos rios do sudoeste asiático, Tailândia, Malásia, Vietnã, etc. Tanques acima de 200 litros e com boa filtragem, trocas de água e boa circulação são os mais indicados para esta espécie, que pode viver sozinho ou em grupo. A medida que cresce, o Comedor de Alga Chinês vai se desinteressando das algas além de se tornar agressivo com outros peixes tornando-se um problema para o criador, que não sabe o que fazer com ele. Há casos relatados de predação de peixes menores e perturbação de maiores, sendo o Comedor de Alga Chinês adulto o vilão nos aquários quando se insere novos peixes de pequeno porte. 

Comedor de Algas Siâmes, um dos poucos peixes que se alimentam de algas petecaUma espécie mais eficaz e agradável para a limpeza de algas do aquário é o Comedor de Algas Siamês (Crossocheilus siamensis), que além da beleza não cresce demais, 15 cm no máximo. O bom deste peixe é que come algas verdes, filamentosas e até petecas no início da infestação. São dóceis, mas podem se tornar territoriais com companheiros da mesma espécie.

Para saber se seu comedor de alga é o verdadeiro Siamês, basta verificar a faixa negra do corpo: ela deve ir do bico até o centro da cauda. Se a faixa acabar na base da cauda e vier junto com uma linha mais fina de cor amarelo ouro, o peixe deve ser outro: ou uma Raposa Voadora (Epalzeorinchus sp.) ou um Garra (Garra cambodgiensis), que atingem também cerca de 15 cm e geralmente são chamados de "Falso Comedor de Alga Siamês". São vendidos nas lojas brasileiras, embora não sejam comuns em todas as regiões. O nome “Falso” não quer dizer que sejam peixes ruins ou feios. Também podem ajudar muito no controle de algas, mas seu comportamento será próximo dos Lábeos. Como estes peixes, eles não se reproduzirão no aquário, o que se consegue apenas com uso de hormônios.


Poecilídeos e Jordanelas.

A Molinésia é um excelente algueiro, pouco valorizado pelos aquaristasNão poderíamos deixar de citar, como exemplos de espécies limpadoras de algas e de sobras de comida os peixes da família dos Poecilídeos, como os Lebistes, Espadas, Platis e Molinésias, além de um parente da América do Norte próximo a eles, as Jordanelas, um ciprinídeo pouco conhecido no Brasil.

Além de bonitos e dóceis estes peixes tanto comem as algas sobre vidros e objetos quanto limpam o substrato de restos de comida, embora eles defequem muito e não comam sobras de ração estragada nem plantas mortas. Vale lembrar que gostam de água levemente salobra, o que pode ser ruim para outras espécies companheiras de aquário como cascudos, tetras e bagres, mesmo que possam viver bem em águas totalmente doces. Não crescem muito, no máximo 10 cm a 12 cm e se reproduzem facilmente nos tanques caseiros, o que pode se transformar em dor de cabeça para o criador que não deseja superlotar o aquário.


Em síntese, sobre estes peixes e invertebrados habitualmente considerados como equipe da limpeza é bom lembrarmos que:

- Não são coprófagos, ou seja: nenhum deles alimenta-se de excrementos (fezes);

- Não nos desobrigam de manutenções periódicas, como TPAs e sifonagens;

- Não nos eximem de pesquisar sobre as espécies escolhidas verificando suas necessidades (parâmetros físico-químicos da água, esconderijos, espaço, comportamento, compatibilidade com os companheiros do aquário, necessidade de grupo, entre outras) e se nosso aquário pode supri-las;

- Têm o direito de receber alimentação adequada a eles (apenas aquela encontrada no aquário pode ser insuficiente tanto em quantidade como em qualidade);

- Devem ser compatíveis com os habitantes já existentes, afinal parte da turma da faxina não precisa correr o risco de virar lanchinho da tarde e nem de tornarem-se os vilões do tanque;

- São ótimos integrantes para a fauna de qualquer aquário de água doce, por sua alegria e beleza e não somente por causa de sua presumida função.

 

Este texto é uma adaptação do tópico do Fórum AqOL "A Turma da faxina. Com todo o respeito" criado por Solange Nalenvajko (Xica) em 04/2014.

Escrito por: Katsuzo Koike e Solange Nalenvajko

Sobre o autor:
Equipe AqOL
Autor: Equipe AqOL
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